Na biblioteca foi a nossa primeira e ultima conversa, depois
disso Merrick desapareceu.
Mandou um recado para Connor dizendo que não poderia
comparecer ao casamento e com um pedido de desculpas, que sentia muito e
desejava felicidades.
Lidia e mamãe adoraram não ter a presença dele na festa, e
achei estranho Connor não ficar preocupado de seu amigo ter desaparecido assim
e simplesmente mandar um bilhete. Se Connor estava preocupado não devia estar
tanto quanto eu, ou preferia não demonstrar.
Mas havia algo estranho no ar. Papai havia pedido a Lidia e
a Connor que adiassem a mudança para a Inglaterra, minha irmã não gostou nada
da ideia, mas resolveu ficar.
Eu já não entendia mais nada, papai andava nervoso, mamãe
muito mais protetora. Com o casamento de Lidia, o quarto que dividíamos era só
meu agora. As duas camas de solteiro deram lugar a uma enorme cama de casal. As
fotografias de Connor e Lidia estavam no quarto deles.
Agora só havia papéis sobre minha escrivaninha. Uma
prateleira com caixas e mais caixas de linhas e bordados que fazíamos juntas.
Eu não tinha vontade para fazer mais nada, do que ficar sentada à janela do meu
quarto ou perto da lareira da sala de jantar.
Papai e Connor passavam metade do dia trancados no
escritório conversando.
Já se passara um mês desde a última vez que vira Merrick.
Todas as noites penso onde ele deveria estar. Aquilo me consumia, minha vontade
era de botar Connor contra a parede e que me dissesse o paradeiro dele. Mas
seria inútil, o que iria dizer? Chegaria intimando, ordenando-o a dizer onde
ele estava para eu poder encontra-lo e viver uma linda história de amor. Não,
isso não.
O que Merrick devia pensar de mim, será que para ele eu era
apenas a cunhada desastrada de seu amigo. Ou ele sentia por mim a mesma coisa
que eu por ele. Penso que viverei com essa dúvida para a vida toda, ou até ele
reaparecer.
Antes de saber que o meu desconhecido e o amigo de Connor
eram a mesma pessoa, eu sabia que o Merrick era um aventureiro sem paradeiro
pelo mundo. Viajando por todos os lugares imagináveis. Como um rapaz tão jovem
poderia conhecer tantos lugares em tão pouco tempo?
Ele não parecia ser muito mais velho que eu, dois, quatro
anos no máximo.
Numa noite fingi que estava com dor de cabeça, pedi licença
e subi para meu quarto. Como de costume sentei perto da janela para olhar o
jardim, era noite de lua cheia e tudo estava claro.
Podia ver todo o jardim coberto de todos os tipos de flores,
mamãe amava flores.
Vi algo se deslocando do portão em direção a grande fonte no
centro do jardim. Fiquei prestando atenção para ver o que era ou quem era.
Pensei comigo mesma: “Deve ser algum animal da mata, um cachorro, algo do
tipo”. Mas não era. Sim, era uma pessoa.
Respirei fundo e observei com mais cuidado para ver quem era, tinha chance de
ser um ladrão, mas meu coração dizia que não era.
Ele ficou logo abaixo de uma luminária e pude ver seu rosto.
Era ele. Não pensei duas vezes abri a porta do meu quarto olhei pelo corredor,
não havia ninguém. Sai correndo e desci a escada quase tropeçando, atravessei a
biblioteca e sai pela porta de entrada no hall. Desci os três degraus da varanda.
Mirei a luminária ao lado da fonte e ele não estava mais ali.
Será que eu me enganei? Ou estava ficando tão louca ao ponto
de ver coisas que não existiam? Um momento de decepção me ocorreu, ele foi
embora e eu nunca mais o veria.
Que história de amor curta e triste.
Virei-me para voltar para dentro de casa.
E lá estava ele na
varanda me olhando com um sorriso enorme no rosto. Seus olhos verdes brilhando
com a luz da lua. Ele voltará.
Não pensei. Quando vi saltei em seus braços e o abracei com
força para que nunca mais fugisse de mim.
Ele viera me ver.