segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Reencontro


Na biblioteca foi a nossa primeira e ultima conversa, depois disso Merrick desapareceu.
Mandou um recado para Connor dizendo que não poderia comparecer ao casamento e com um pedido de desculpas, que sentia muito e desejava felicidades.
Lidia e mamãe adoraram não ter a presença dele na festa, e achei estranho Connor não ficar preocupado de seu amigo ter desaparecido assim e simplesmente mandar um bilhete. Se Connor estava preocupado não devia estar tanto quanto eu, ou preferia não demonstrar.
Mas havia algo estranho no ar. Papai havia pedido a Lidia e a Connor que adiassem a mudança para a Inglaterra, minha irmã não gostou nada da ideia, mas resolveu ficar.
Eu já não entendia mais nada, papai andava nervoso, mamãe muito mais protetora. Com o casamento de Lidia, o quarto que dividíamos era só meu agora. As duas camas de solteiro deram lugar a uma enorme cama de casal. As fotografias de Connor e Lidia estavam no quarto deles.
Agora só havia papéis sobre minha escrivaninha. Uma prateleira com caixas e mais caixas de linhas e bordados que fazíamos juntas. Eu não tinha vontade para fazer mais nada, do que ficar sentada à janela do meu quarto ou perto da lareira da sala de jantar.
Papai e Connor passavam metade do dia trancados no escritório conversando.
Já se passara um mês desde a última vez que vira Merrick. Todas as noites penso onde ele deveria estar. Aquilo me consumia, minha vontade era de botar Connor contra a parede e que me dissesse o paradeiro dele. Mas seria inútil, o que iria dizer? Chegaria intimando, ordenando-o a dizer onde ele estava para eu poder encontra-lo e viver uma linda história de amor. Não, isso não.
O que Merrick devia pensar de mim, será que para ele eu era apenas a cunhada desastrada de seu amigo. Ou ele sentia por mim a mesma coisa que eu por ele. Penso que viverei com essa dúvida para a vida toda, ou até ele reaparecer.
Antes de saber que o meu desconhecido e o amigo de Connor eram a mesma pessoa, eu sabia que o Merrick era um aventureiro sem paradeiro pelo mundo. Viajando por todos os lugares imagináveis. Como um rapaz tão jovem poderia conhecer tantos lugares em tão pouco tempo?
Ele não parecia ser muito mais velho que eu, dois, quatro anos no máximo. 
Numa noite fingi que estava com dor de cabeça, pedi licença e subi para meu quarto. Como de costume sentei perto da janela para olhar o jardim, era noite de lua cheia e tudo estava claro.
Podia ver todo o jardim coberto de todos os tipos de flores, mamãe amava flores.
Vi algo se deslocando do portão em direção a grande fonte no centro do jardim. Fiquei prestando atenção para ver o que era ou quem era. Pensei comigo mesma: “Deve ser algum animal da mata, um cachorro, algo do tipo”.  Mas não era. Sim, era uma pessoa. Respirei fundo e observei com mais cuidado para ver quem era, tinha chance de ser um ladrão, mas meu coração dizia que não era.
Ele ficou logo abaixo de uma luminária e pude ver seu rosto. Era ele. Não pensei duas vezes abri a porta do meu quarto olhei pelo corredor, não havia ninguém. Sai correndo e desci a escada quase tropeçando, atravessei a biblioteca e sai pela porta de entrada no hall. Desci os três degraus da varanda. Mirei a luminária ao lado da fonte e ele não estava mais ali.
Será que eu me enganei? Ou estava ficando tão louca ao ponto de ver coisas que não existiam? Um momento de decepção me ocorreu, ele foi embora e eu nunca mais o veria.
Que história de amor curta e triste.  
Virei-me para voltar para dentro de casa.
 E lá estava ele na varanda me olhando com um sorriso enorme no rosto. Seus olhos verdes brilhando com a luz da lua. Ele voltará.
Não pensei. Quando vi saltei em seus braços e o abracei com força para que nunca mais fugisse de mim.

Ele viera me ver.

sábado, 27 de outubro de 2012

As primeiras palavras.


Ele me fitava com aquele sorriso enquanto eu ainda  estava paralisada ao pé da escada sem reação. Como poderia o mundo ser tão pequeno ao ponto de o meu desconhecido ser um grande amigo de meu futuro cunhado.
Eu fiquei imersa em meus pensamentos por alguns segundos até ser trazida para a realidade por minha mãe. Pedi licença aos homens e fui me juntar as mulheres como de costume, minha mãe me fez passar o resto da tarde ao lado dela, ela podia sentir que havia algo no ar. Algo não lhe agradava em Merrick. Merick, sim o meu desconhecido atraente agora tinha nome. Alem de belo e atraente ele era encantador, extremamente educado. Enquanto conversava com meu pai volta e meia ele voltava seus olhares para mim com um sorriso entre lábios, e eu retribuía timidamente e discretamente para mamãe não perceber.

Em um momento de distração de mamãe sai em direção à biblioteca, não aguentava mais ficar sentada fazendo companhia ao convidados. Subi na escada da prateleira para pegar um livro no alto. Na descida calculei mal o passo e quase cai da escada, mas não senti um impacto no chão e sim mãos macias segurando-me pela cintura. Virei rapidamente para ver o que acontecera. E lá estava ele com seu sorriso sedutor.
 - Desculpe-me, não queria assustá-la. Simplesmente foi um reflexo. No momento em que entrei na porta você tropeçou. - disse-me tirando o sorriso do rosto parecendo envergonhado.
Tomei fôlego para respondê-lo, ainda não havia lhe dirigido a palavra.
 - Não tem o porquê de se desculpar. - eu estava indo bem, pelo menos não havia gaguejado, então continuei. - Eu que agradeço. Se não fosse o senhor eu neste momento estaria no chão, no mínimo com uma perna ou braço quebrados.
Ri timidamente, ele riu comigo.
 - Por favor, não me chame de senhor, assim me sinto bem mais velho que você. E não quero me sentir assim.

Tenho certeza que corei, minha bochechas estavam em chamas, queria chamá-lo pelo nome ao menos uma vez, mas se minha mãe ouvisse, ou ao menos soubesse que tivemos um momento e conversa a sós ficaria furiosa.
 - É melhor tratá-lo como senhor, minha mãe ficaria descontente se soubesse disto. - refleti - Porem pensando por um momento, quantos anos o se... desculpe... você tem?
Ele demorou a me responder, mirou a estante cheia de livros atrás de mim, Respirou e respondeu.
 - Um pouquinho mais do que você.
Ouvi a porta para a sala de jantar se abrir, Lidia passou por ela. Virei para Merrick e ele não estava mais ali, com certeza havia saído pela porta de acesso ao hall da mansão.
 - Kyara, o que faz aqui falando sozinha? Ou havia alguém com você?
Instantaneamente e nervosa respondi.
 - Eu estava lendo em voz alta, só isso. Não aguentava mais ficar na sala sentada sem fazer nada. Aproveitei que mamãe havia saído e fugi para cá.
Sorri tentando disfarçar.
- Volte para a sala de jantar, os convidados já estão indo embora e papai quer você ao nosso lado para se despedir.

Concordei com a cabeça.
Fitei a porta de saída para o hall mais uma vez.


Ele não estava mais ali.

O começo.



Nasci em um mundo diferente. Eu era apenas uma jovem de 18 anos que era feliz. Vivia com meus pais e minha irmã, apenas três anos mais velha que eu. Estávamos em festa, pois minha irmã logo iria se casar, ela estava feliz, e eu também, por ela.Mas parte de mim se sentia mal, pois perderia minha amiga e confidente, logo após o casamento ela se mudaria para a Inglaterra com o marido e teria a vida dela, e eu continuaria no Brasil vivendo com nossos pais. Minha vida era simples, mais feliz ao lado dela. Passamos o dia bordando juntas, as vezes íamos a cidade fazer comprar para o enxoval.
Foi em uma dessas viagem até a cidade que conheci um belo rapaz, me senti atraída por ele como se eu fosse a lua e ele a terra. Seu olhar fixo em mim e minha irmã, isto a deixou meio nervosa, sem saber o que fazer. Para ela eu ainda era uma menina que não havia crescido. Porem ela percebeu que logo após seu casamento chegaria minha vez, eu não seria mais vista como a filha caçula dos Balestriero, e sim a nova filha para se casar.
Lidia, minha irmã ficou noiva quando tinha 19 anos, mais de dois anos para os preparativos do casamento. Aquela era vida que ela queria, mais sabia que não era  a que eu queria. Nem eu mesma sabia o que queria, então ficaria confortada com o que meus pais decidissem. Naquela época, hoje já penso diferente.

Passei dias sonhando com aquele estranho, querendo saber quem era e porque eu me senti tão atraída por ele. Mas eu me culpava, aquilo era um erro, eu nem o conhecia e muito menos meus pais. Eles nunca admitiriam se descobrissem essa atração que eu sentia, então mantive esse segredo só para mim, se Lidia soubesse na maior forma protetora contaria aos nossos pais.

Havia chegado a semana do casamento, com os preparativos e a chegada da família de Connor não tive tempo de pensar no desconhecido atraente.

Até que fui pega de surpresa no dia do casamento.

Connor realizou um almoço em nossa casa para receber os seus amigos que foram convidados para a celebração.
Alguns amigos de infância. E entre eles havia um amigo que ele destacava mais do que todos, o havia conhecido em uma viagem de estudos a América Central. Merrick Frattin era seu nome. Connor contava aos meus pais as aventuras do amigo com entusiasmo, minha mãe parecia não se agradar da presença de um estranho aventureiro dentro de nossa casa. Meu pai ficava fascinado com as histórias, e eu entediada e louca para que os convidados chegassem, pois meu estômago já se manifestava. Pedi licença aos meus pais e fui até o quarto trocar de roupa, pois os convidados começaram a chegar. Não me demorei muito e logo voltei para a sala de jantar central.
Meus pais eram fascinados pela arquitetura, meu pai projeta os desenhos da casa perfeitamente. A sala de jantar central era deslumbrante. Com uma escada que dava acesso aos segundo andar da casa, bem próxima à biblioteca, ao pé da escada haviam poltronas e uma lareira onde meu pai se sentava para ler enquanto eu e Lidia bordávamos sentadas ao chão, um nível de degrau separava-as da mesa de jantar para dez lugares, meu pai sonhava em ter uma grande família. Estavam todos ali, amigos do papai, e os amigos de Connor vindos da Inglaterra, alguns da França.

Papai estava ao pé da escada com Connor e outro rapaz, conversavam empolgados como se planejassem algo para o futuro, fiquei parada no alto da escada por uns segundos, até que Connor cutucou papai que logo se virou para me ver, saindo da frente do rapaz. Quando o vi uma sensação flui por meus ossos que começando pela coluna e terminando nas pontas dos dedos dos pés e das mãos. Era ele, o desconhecido que vira a uma visita a cidade com Lidia, o estranho que sonhei durante noite, aqueles olhos verdes. Era ele. Desci a escada nervosa e calmamente para não tropeçar. Chegando a menos de um metro perto dele. Ele estendeu a mão e eu lhe dei a minha, seus lábios suaves tocaram minha pele que fez todo meu corpo estremecer novamente. Em uma pausa ele se tomou ereto novamente e suavemente abriu os lábios e disse:
 - Prazer senhorita, sou Merrick Frattin, amigo de seu cunhado. - terminando a frase com um sorriso no rosto.

Meu coração parou por um segundo.